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Uma abordagem estratégica da Política de Comunicação Social Espírita
Ivan Franzolim

A ABRADE - Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas identificou a necessidade de o movimento espírita organizado ter uma Política de Comunicação Social Espírita - PCSE, pelos benefícios que ela pode trazer. Além das vantagens do aumento de qualidade das mensagens e da eficácia dos resultados, traz, inegavelmente, o benefício de despertar a atenção desse movimento e estimular seus diversos componentes ao diálogo produtivo.

Caso se tratasse de qualquer outra doutrina, esse assunto seria institucional e ficaria circunscrito a alta direção e sua área de Relações Públicas. Com a Doutrina Espírita é diferente, pois ela está inserida em um contexto social de liberdade em que as federativas atuam mais como orientadoras, sem autoridade para cercear a liberdade de expressão dos Centros e instituições espíritas que atuam livremente. Assim, a Abrade tomou a iniciativa de coordenar esse processo, convidando a participação de todos.

Quando começamos a pensar na PCSE surge naturalmente uma série de questões que precisam ser respondidas antes, como: Quem comunica? O que comunica? De que forma comunica? Para quem comunica? E por que razões comunica?

Quero salientar nesse artigo que a PCSE deve ser conseqüência de um trabalho maior que oferece um caminho testado com maior probabilidade de sucesso. A PCSE não é algo apartado ou que deva ser tratado de forma isolada. Faz parte de algo maior que podemos chamar de Planejamento Estratégico de Comunicação. As idéias aqui expostas foram desenvolvidas a partir do livro Planejamento de Relações Públicas na Comunicação Integrada, Margarida Maria K. Kunsch. São Paulo: Summus, 2003.

O espiritismo e seu movimento estão inseridos em uma sociedade altamente complexa e mutável. É uma infinidade de variáveis que interagem produzindo mudanças constantes, como as sociais, culturais, tecnológicas, políticas, econômicas, legais, ecológicas. São essas e outras variáveis que compõem o contexto da situação atual que possibilitam algumas projeções de futuro. Elas também precisam ser analisadas, pois interferem nos objetivos que pretendemos alcançar.

É preciso tentar reunir um número significativo de representantes do movimento espírita e desenvolver um trabalho para homogeneização de conhecimentos sobre a situação atual e as possibilidades de futuro. Não se pode construir uma política partindo de uma base de conhecimentos que varia de indivíduo a indivíduo, uma vez que as diferenças irão dificultar vencer o desafio de obter um consenso sobre o maior número de pontos a serem estabelecidos.

Para se conseguir essa homogeneidade, o ideal é partir da base, procurando definir claramente itens como: qual a missão (finalidade principal) do espiritismo, que futuro desejamos, o que é o movimento espírita, quem participa dele e precisa se comunicar, quais os públicos envolvidos, quais os tipos de comunicação envolvidos (interpessoal, administrativa interna formal, interinstitucional, doutrinária, mercadológica). Que veículos de comunicação estão sendo usados, de quais maneiras estão sendo empregados, que resultados estamos obtendo? Que produtos e serviços oferecemos e devemos continuar a oferecer? De que maneira eles devem ser realizados ou produzidos? Que produtos e serviços deveríamos oferecer e quais deveríamos deixar de fazer?

Esses itens fazem parte da Análise da Situação Atual, interna (do movimento) e externa (da sociedade). Na análise interna devem ser identificados os pontos fortes (potencialidades) e os pontos fracos (fragilidades), na análise externa devem ser identificadas as ameaças (o que pode dificultar ou desviar dos objetivos) e as oportunidades (coisas novas ou atuais que podemos melhorar).

É fundamental também pesquisar como os diferentes públicos captam e percebem as mensagens e qual imagem estão formando com elas, o que valorizam, o que não gostam e o que são indiferentes. Por mensagens devemos entender os textos, as falas e as imagens e sons que produzimos, bem como a forma como comunicamos, o tom, as entrelinhas, as possibilidades de interpretação, enfim, o contexto comunicacional.

Podemos chamar esse esforço de análise de Diagnóstico da Situação Atual. Conhecendo mais em detalhes essa situação, dando preferência aos fatos no lugar das inferências, podemos projetar seus efeitos e comparar com nossa visão de futuro, identificando melhor o que queremos e não queremos. Nesse ponto podemos criar pelo menos três cenários de futuro: um otimista, mas viável, outro pessimista, mas não exagerado, e outro intermediário. Serão eles que nos ajudarão a estabelecer as políticas com relação à situação que queremos atingir.

Antes de avançar para a definição das políticas, é importante estabelecer os princípios de que não abrimos mão e que devem nortear as ações decorrentes das políticas, como: ética, liberdade, honestidade, fraternidade, não violência, diálogo, transparência, aprendizado e outros.

Apenas a partir de todo esse esforço conjunto vamos ter condições de produzir políticas ou diretrizes estratégicas coerentes com o que somos e onde queremos chegar. Todavia, teremos ainda a difícil tarefa de estabelecer caminhos na área da comunicação sem a definição mais clara de uma série de aspectos que a influenciam, mas que pertencem ao espiritismo, ou ao entendimento que as pessoas que participam da PCSE têm de seu conhecimento. Alguns exemplos:

- Deve haver esforço para fazer novos adeptos? Quais as exceções?
- Qual o papel das ações sociais no movimento? Existem limites?
- O Centro Espírita deve buscar uma administração mais profissional?
- Como lidar com os voluntários?
- Qual o papel da mediunidade no espiritismo? Como fazer seu melhor uso?
- Até que ponto o Centro pode se envolver com o movimento político brasileiro?
- Como arrecadar recursos de forma ética?
- Quais os meios de arrecadação mais indicados e os que devem ser evitados?
- Que atividades do Centro Espírita são recomendadas? Quais não são?
- Qual a melhor maneira de ensinar o espiritismo? O que deve ser evitado?
- Qual deve ser nossa contribuição à cultura, a arte e ao esporte?

Políticas ou diretrizes estratégicas são macro caminhos, direções que expressam de forma qualitativa, uma situação que se deseja atingir no futuro com condições concretas de realização. Elas devem ser desdobradas em objetivos (decomposição da política em alvos a serem alcançados) e metas (resultado mensurável a ser atingido). Essas, por sua vez, fazem parte dos Planos de Ação. Os Planos de Ação devem estabelecer as ações (o fazer mais simples), projetos (conjunto de atividades interligadas visando um fim específico em período determinado) e programas (conjunto de ações que se repetem para se atingir determinado fim) que aumentem as possibilidades de se atingir as metas e, por conseqüência, os objetivos e as políticas.

Tudo isso gera trabalho, coisas que devem ser feitas, acompanhadas e avaliadas por meio de indicadores. Isso é a Gestão. Pessoas devem ser alocadas às tarefas, inseridas em grupos, conscientizadas do que se pretende, recursos materiais e financeiros devem ser disponibilizados para garantir os melhores resultados. Isso é Planejamento Estratégico, do qual a PCSE faz parte.

 

 

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